Category: Reality shows

  • Survival shows de k-pop: de Produce 101 a I-Land

    O formato é sempre o mesmo na essência: dezenas de jovens em treinamento competem por um número limitado de vagas num grupo que vai debutar ao final do programa. O público vota. A cada episódio, alguém é eliminado. No final, os sobreviventes — entre sete e onze, dependendo do show — formam o grupo, gravam um single e começam uma carreira. Parece simples. Na prática, os survival shows de [k-pop](/blog?tag=k-pop) são uma das formas mais complexas e mais controversas de produção de entretenimento já desenvolvidas — e são responsáveis por alguns dos grupos mais importantes da última década.

    Entre 2016 e 2023, o formato redefiniu como grupos de k-pop são formados, como o público se relaciona com eles antes mesmo do debut, e como a indústria monetiza o engajamento de fãs num nível que nenhum outro formato havia alcançado. Entender os survival shows é entender boa parte do que o k-pop contemporâneo é — e por que grupos como Wanna One, IZ*ONE e Enhypen têm histórias tão diferentes dos grupos formados pela via tradicional de agências.

    Produce 101 (2016)
    IOI — 11 membros, grupo temporário
    Produce 101 Season 2 (2017)
    Wanna One — 11 membros, ícone do formato
    Produce 48 (2018)
    IZ*ONE — colaboração Coreia-Japão
    Produce X 101 (2019)
    X1 — dissolvido após escândalo de votos
    I-Land (2020)
    Enhypen — grupo da HYBE/Belift Lab
    Girls Planet 999 (2021)
    Kep1er — formato pan-asiático
    Boys Planet (2023)
    ZeroBaseOne — maior sucesso recente

    Como funciona o formato

    A estrutura básica de um survival show de k-pop começa com um grande número de participantes — geralmente entre 50 e 101 trainees, vindos de diferentes agências ou sem agência — que são avaliados por juízes profissionais e pelo voto do público. Os participantes são agrupados em equipes para performances semanais, recebem avaliações públicas de habilidade e são ranqueados em tempo real. O ranqueamento determina visibilidade: quem está bem ranqueado tem mais tempo de câmera, melhores posições nas performances e mais chance de subir no voto do público. Quem está mal ranqueado pode desaparecer literalmente da edição.

    O voto do público é o coração do formato — e o que o torna fundamentalmente diferente de qualquer outro método de formação de grupo. Fãs votam ativamente em seus favoritos, muitas vezes com sistemas que recompensam volume (múltiplos votos por conta, aplicativos próprios, pacotes de votos ligados à compra de produtos patrocinadores). Isso cria uma dinâmica em que o grupo final não é escolhido pela agência nem pelos juízes — é literalmente construído pela base de fãs, o que gera um nível de investimento emocional anterior ao debut que nenhum outro modelo consegue replicar. Quando o grupo estreia, os fãs que votaram por meses já têm uma história com ele.

    Produce 101: o show que mudou tudo

    **Produce 101** (2016), produzido pela Mnet, foi o primeiro grande survival show coreano no formato moderno e estabeleceu praticamente todos os elementos que os shows seguintes copiariam ou adaptariam. A primeira temporada resultou no **IOI** — grupo feminino temporário de 11 membros, ativo por menos de um ano, mas que gerou uma base de fãs intensa e lançou as carreiras individuais de todas as participantes. A segunda temporada, em 2017, produziu o **Wanna One** — grupo masculino de 11 membros que se tornou o caso de sucesso definidor do formato: em menos de dois anos de atividade, o grupo vendeu mais de 2 milhões de álbuns e estabeleceu um modelo de negócio que a indústria inteira passou a imitar.

    **Produce 48** (2018) foi uma das tentativas mais ousadas do formato: cruzar o sistema de survival coreano com o AKB48, o maior grupo feminino do Japão, resultando no **IZ*ONE** — grupo misto de membros coreanas e japonesas que funcionou simultaneamente nos dois mercados. Foi um experimento bem-sucedido de exportação do formato para além da Coreia, com os dois grupos de fãs votando pela internet num processo que exigia logística específica para cada país. O resultado foi um dos grupos com maior crossover de audiência da história recente do k-pop — e uma das dissoluções mais sentidas quando o contrato temporário terminou em 2021.

    O escândalo que abalou o formato

    **Produce X 101** (2019) terminou numa crise que quase destruiu o formato inteiro. Investigações revelaram que produtores da Mnet haviam manipulado o resultado dos votos em todas as quatro temporadas da franquia Produce — alterando as posições finais para favorecer participantes específicos. No caso do X1, o grupo formado na quarta temporada, o escândalo foi grave o suficiente para resultar na dissolução do grupo apenas meses após o debut, na condenação criminal dos produtores envolvidos e numa perda de confiança do público coreano no formato que levou anos para ser parcialmente recuperada. O escândalo também gerou um debate real sobre a ética de um sistema em que o público acredita estar escolhendo o resultado mas a produção tem poder sobre ele.

    Para muitos fãs que tinham votado intensamente nas temporadas anteriores, o escândalo foi uma ruptura pessoal — não apenas uma notícia de entretenimento, mas a revelação de que o contrato implícito do formato (seu voto importa, você tem poder) havia sido violado. A Mnet perdeu credibilidade significativa e levou tempo para retomar o formato com algum grau de confiança do público. Os shows que vieram depois tiveram que construir sistemas de verificação mais transparentes para recuperar o que havia sido perdido.

    I-Land, Boys Planet e o formato pós-escândalo

    **I-Land** (2020) foi a resposta da HYBE ao formato — com uma diferença fundamental: parte da decisão final ficava nas mãos de produtores especialistas, não apenas no voto público. O show criou o **Enhypen**, grupo que se tornou um dos mais bem-sucedidos da quarta geração do k-pop e uma demonstração de que o formato podia funcionar sob estruturas diferentes da Mnet. **Girls Planet 999** (2021) expandiu o modelo pan-asiático do Produce 48 para três países — Coreia, Japão e China — formando o **Kep1er** com membros dos três mercados. O sucesso foi moderado mas suficiente para confirmar que o formato sobreviveu ao escândalo.

    **Boys Planet** (2023) foi o retorno mais bem-sucedido da Mnet ao formato e produziu o **ZeroBaseOne** — o grupo de survival de maior impacto comercial dos últimos anos, com um debut que quebrou recordes de pré-venda e uma base de fãs construída durante meses de transmissão. O show mostrou que, mesmo com o histórico de escândalo, o formato ainda tem uma capacidade de engajamento que nenhum outro modelo de formação de grupo consegue replicar. A transparência maior nos sistemas de voto e a presença de auditorias externas ajudaram a reconstruir parte da confiança perdida.

    Por que os grupos de survival são diferentes

    Um grupo formado pelo caminho tradicional — agência identifica trainees, treina por anos, forma grupo, debuta — chega ao público como produto pronto. A narrativa de quem são essas pessoas já foi editada pela agência. Um grupo de survival chega diferente: o público acompanhou o processo, viu os participantes em situações de pressão real, formou opiniões sobre cada um antes do debut. A lealdade que isso cria é qualitativamente diferente da lealdade que se desenvolve depois. Os fãs de grupos de survival frequentemente descrevem uma sensação de que ajudaram a construir o grupo — e tecnicamente, por meio do voto, é verdade.

    Há também a questão dos grupos temporários — uma característica específica de vários shows, especialmente os da Mnet. IOI, Wanna One, IZ*ONE e X1 tinham contratos pré-definidos de 1,5 a 2,5 anos. Isso cria uma urgência específica no consumo: fãs sabem que o grupo vai acabar, o que intensifica o engajamento durante a atividade e torna a dissolução um evento emocional significativo. Esse modelo de escassez planejada é deliberado — e funciona comercialmente de forma consistente, mesmo que deixe fãs com uma sensação de perda que grupos de longa duração raramente provocam da mesma forma.

    Para quem quer começar a assistir

    Se você está começando a explorar o universo dos survival shows, o ponto de entrada mais acessível depende do que você já conhece. Se você já acompanha algum grupo de [k-pop](/blog?tag=k-pop), procurar o survival show que deu origem a ele é a entrada mais natural — o contexto de formação muda completamente a leitura de quem o grupo é. Se você está chegando sem referência prévia, Produce 101 Season 2 e I-Land são os dois shows mais bem produzidos e mais acessíveis para assistir hoje, mesmo anos depois da transmissão original. Ambos estão disponíveis com legendas em plataformas de streaming. Para explorar os grupos que saíram desses shows e os artistas que participaram, confira os [artistas](/artists) e [grupos](/groups) no catálogo do HallyuHub.


  • Produce 101: o reality que reformatou o k-pop

    Produce 101: o reality que reformatou o k-pop

    Em janeiro de 2016, a Mnet estreou um programa que parecia mais um experimento do que uma aposta consolidada: **Produce 101** (프로듀스 101). A premissa era simples e ao mesmo tempo ambiciosa — 101 trainees de diferentes agências competiriam ao vivo, semana após semana, com o público votando para decidir quais 11 delas formariam um grupo temporário. Não havia precedente direto para esse formato no k-pop. Grupos de idol eram formados dentro das agências, por decisão dos executivos, após anos de treinamento fechado e avaliações internas. A ideia de colocar esse processo em público, em tempo real, com voto popular definindo o resultado, era uma ruptura com a lógica que havia dominado a indústria desde o surgimento do k-pop moderno nos anos 1990.

    O que ninguém previu — nem a Mnet, nem as agências participantes, nem os próprios trainees — foi a escala do que viria a seguir. **Produce 101** não foi apenas um sucesso de audiência. Foi o início de um formato que dominou o entretenimento coreano por quatro anos consecutivos, gerou grupos que venderam dezenas de milhões de cópias ao redor do mundo, e terminou em um dos maiores escândalos de manipulação de votos da história da televisão sul-coreana — com produtores condenados criminalmente e grupos dissolvidos antes de completar um ano de atividade. Essa é a história completa da franquia que reformatou o [k-pop](/blog?tag=k-pop) e ainda ecoa profundamente no setor hoje.

    Emissor
    Mnet (CJ ENM)
    Temporadas
    4 (2016–2019)
    Grupos formados
    I.O.I, Wanna One, IZ*ONE, X1
    Formato
    101 trainees → 11 finalistas por voto público
    Escândalo
    Manipulação de votos confirmada (2019)
    Legado
    Wanna One: 8,5M cópias vendidas

    O contexto: por que o k-pop precisava desse formato

    Para entender por que o Produce 101 funcionou da forma que funcionou, é preciso entender onde o k-pop estava em 2015 e 2016. A indústria havia passado por uma expansão significativa na primeira metade dos anos 2010, impulsionada pelo sucesso global de grupos como Girls' Generation, EXO, BTS e BIGBANG. O mercado coreano de idol estava saturado de grupos que estreavam com pouca diferenciação, e o modelo tradicional de debut — agência anuncia grupo, grupo lança single, grupo tenta construir fanbase do zero — estava com retornos decrescentes para agências de médio porte. As grandes casas (SM, YG, JYP) conseguiam sustentar debuts custosos porque tinham capital e distribuição. As menores tinham trainees investidos mas poucos recursos para construir o reconhecimento necessário para um debut relevante.

    Foi nesse contexto que a Mnet, canal especializado em música da CJ ENM, desenvolveu o conceito do Produce 101. A ideia central era transferir para o público a decisão que historicamente pertencia aos executivos: quem merece debutar. Do ponto de vista das agências pequenas, era uma oportunidade de exposição nacional para seus trainees sem o custo de um debut completo. Do ponto de vista da Mnet, era conteúdo com suspense genuíno, atualizado semanalmente, com uma audiência que tinha razões concretas para continuar assistindo — seus votos determinavam o resultado. A fórmula era nova, mas os ingredientes não eram: competição, escolha do público, narrativas pessoais e música. O que a Mnet fez foi combinar esses elementos de uma forma que o k-pop nunca havia testado em escala.

    Temporada 1 (2016): o experimento que funcionou

    A primeira temporada do **Produce 101** foi feminina e centrada em agências pequenas e médias. As grandes — SM, YG, JYP — não participaram, o que na época parecia uma limitação do formato. O resultado foi o oposto: sem o peso dos grandes nomes, o público se conectou com trainees desconhecidas e o processo de votação se tornou genuinamente imprevisível. A vencedora mais votada, Choi Yoo-jung, era de uma agência pequena chamada Fantagio. O grupo formado, **I.O.I** (아이오아이), estreou com *Crush* e *Dream Girls* e gerou um nível de histeria de fãs que surpreendeu até os executivos da Mnet. Em menos de um ano de atividade — porque o grupo era temporário por design — vendeu mais de 200 mil cópias do EP de estreia, *Chrysalis*.

    A mecânica do programa foi tão importante quanto o conteúdo. Cada episódio mostrava os trainees em avaliações, batalhas de performance e momentos de bastidores cuidadosamente editados para criar arcos emocionais. O público votava online entre os episódios, e os rankings eram revelados em tempo real no programa, com trainees eliminados à vista de todos. Esse formato criou um ciclo de engajamento semanal diferente de qualquer outro programa de variedades coreano: os fãs não apenas assistiam, eles agiam, discutiam estratégias de voto em fóruns e formavam comunidades organizadas em torno de candidatas específicas. O vocabulário dessas comunidades — 'nacional produtor', o termo para o eleitor do programa — se tornou parte do léxico k-pop.

    O I.O.I funcionou por uma razão que o formato revelou pela primeira vez em escala: quando o público investe na jornada de formação de um grupo, o vínculo emocional com o resultado é qualitativamente diferente do que se constrói com um grupo cujo debut foi anunciado pela agência. Cada voto dado durante o programa é um ato de investimento afetivo. A vitória do grupo não é apenas o debut de uma idol — é a vitória do próprio fã, que participou do processo e contribuiu para o resultado. Esse mecanismo de engajamento foi o que a Mnet descobriu em 2016 e que iria explorar ao máximo nas temporadas seguintes. O conceito de 'nacional produtor' não era apenas um título — era uma identidade que conferia responsabilidade e pertencimento.

    Conteúdo relacionado: Produce 101

    Temporada 2 (2017): Wanna One e o pico da franquia

    A segunda temporada mudou o gênero — desta vez masculino — e confirmou que o formato não tinha sido sorte de estreia. **Produce 101 Season 2** foi um fenômeno ainda maior que o original. Com participantes de agências maiores e médias e uma base de fãs femininas mobilizada como nunca, os episódios quebraram recordes de audiência no cabo coreano e o sistema de votação travou múltiplas vezes pela quantidade de acessos simultâneos. O grupo formado, **Wanna One** (워너원), estreou em agosto de 2017 com *Energetic* — e o MV atingiu 10 milhões de visualizações em menos de 24 horas, um recorde expressivo para a época. A pré-venda do álbum de estreia, *1X1=1 (To Be One)*, vendeu mais de 400 mil cópias antes do lançamento.

    O sucesso da Season 2 foi impulsionado pela qualidade dos participantes. Kang Daniel, que terminou em primeiro lugar, tinha uma combinação rara no k-pop masculino da época: presença de palco de dançarino principal, personalidade carismática e uma narrativa de backstory — ele havia trabalhado em uma pet shop antes de entrar no treinamento — que ressoou com fãs de formas distintas. Park Jihoon, que terminou em segundo, era praticamente desconhecido antes do programa mas viralizou com um momento de 'wink' que se tornou um dos memes mais compartilhados do k-pop de 2017. Lai Guanlin, um trainee taiwanês, demonstrou como o formato tinha se tornado relevante além das fronteiras coreanas. A Season 2 não apenas repetiu o sucesso da primeira temporada — ela o amplificou em todas as dimensões.

    O Wanna One foi um caso raro no k-pop: um grupo com prazo de validade predefinido que, mesmo assim, construiu uma fanbase de nível de grupo principal de grandes agências. Em menos de dois anos de atividade — com um hiato obrigatório para serviço militar de alguns membros mais velhos e restrições contratuais das agências de origem — vendeu mais de **8,5 milhões de cópias** de álbuns, realizou uma turnê mundial que passou por múltiplos países e gerou carreiras solo de longo prazo para membros como Kang Daniel, Park Jihoon e Ha Sungwoon. O modelo de 'grupo temporário com data de encerramento' provou que o k-pop podia funcionar com uma lógica de série limitada, não apenas de carreira indefinida — e que a limitação no tempo, paradoxalmente, intensificava o engajamento dos fãs, que sabiam que cada comeback era um dos últimos.

    Produce 48 (2018): o experimento japonês

    A terceira temporada foi a mais experimental: **Produce 48** cruzou o formato coreano com o AKB48, o maior e mais influente grupo de idol japonês, colocando trainees coreanas e membros do AKB48 e suas grupos-irmãs em competição pela mesma formação final. O conceito era ambicioso — um grupo que representaria simultaneamente os dois maiores mercados de idol da Ásia, operando em coreano e japonês. Do lado coreano, havia trainees de diversas agências, incluindo algumas caras conhecidas de programas anteriores. Do lado japonês, havia membros do AKB48, SKE48, NMB48 e HKT48, cada uma com bases de fãs consolidadas no Japão. A diferença cultural entre os dois sistemas de idol ficou evidente nas primeiras semanas: as japonesas tinham experiência de performance distinta, com estética diferente, e a comunicação entre os grupos foi um arco narrativo central da temporada.

    O resultado foi **IZ*ONE** (아이즈원), um grupo coreano-japonês com 12 membros — 9 coreanas e 3 japonesas — que, apesar da complexidade logística de operar em dois países com agendas distintas, tornou-se um dos grupos femininos mais populares do período 2018–2021. *La Vie en Rose*, o debut single, é até hoje um dos temas mais reconhecíveis do k-pop feminino da segunda metade dos anos 2010. O álbum de estreia *COLORIZ* vendeu mais de 200 mil cópias. A combinação de mercados funcionou comercialmente: o IZ*ONE tinha base de fãs significativa tanto na Coreia quanto no Japão, permitindo atividades simultâneas nos dois países — álbuns em japonês, turnês locais, aparições em programas de variedades dos dois lados.

    Conteúdo relacionado: Produce 48

    O Produce 48 também foi a temporada onde as primeiras suspeitas de manipulação começaram a circular com mais força e organização entre os fandoms. Resultados de eliminação que contradiziam tendências de votação visíveis, discrepâncias numéricas nos totais divulgados entre episódios, e padrões estatisticamente improváveis nos votos finais foram apontados por fãs em fóruns online coreanos e internacionais. Análises estatísticas amadores, publicadas no Reddit e em blogs de k-pop, tentavam identificar inconsistências nos números. A Mnet negou irregularidades e atribuiu as discrepâncias ao sistema de contagem. Dois anos depois, o sistema inteiro desmoronaria com a força de uma investigação policial.

    Produce X 101 (2019) e o colapso

    A quarta temporada, **Produce X 101**, formou o grupo **X1** (엑스원) em julho de 2019. A 'X' no nome era uma referência ao conceito da temporada — a ideia de que o grupo seria algo além das fórmulas anteriores. O X1 debutou com *Flash* em agosto de 2019 e vendeu mais de 400 mil cópias do álbum *비상: QUANTUM LEAP* em pré-venda — a primeira semana de vendas mostrava que o grupo tinha potencial para acompanhar o sucesso do Wanna One. Mas antes do grupo lançar seu primeiro álbum completo, a investigação policial sul-coreana que havia sido aberta após denúncias anônimas começou a produzir resultados concretos. O que se confirmou foi chocante: produtores e executivos da Mnet tinham manipulado os resultados de **todas as quatro temporadas** do Produce — incluindo as duas primeiras, que geraram o I.O.I e o Wanna One.

    Os detalhes da manipulação, revelados no processo criminal, eram sistemáticos. Não se tratava de ajustes marginais nos resultados — os produtores alteravam votos para trainees específicos de acordo com critérios que nunca foram completamente esclarecidos publicamente, mas que provavelmente envolviam acordos com agências, preferências editoriais da Mnet e considerações sobre a composição final do grupo. Trainees que tinham votos suficientes para entrar na formação final foram removidos. Trainees que não atingiram os votos necessários foram mantidos. O processo todo — que durante quatro anos foi apresentado ao público como o mecanismo central de um programa baseado na 'vontade do nacional produtor' — era, em parte, uma ficção.

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    Os produtores responsáveis foram condenados criminalmente pela Justiça sul-coreana. Ahn Joon-young, o produtor principal da franquia, recebeu pena de prisão. O X1 foi dissolvido em janeiro de 2020, apenas seis meses após o debut — sem ter lançado um álbum completo de estúdio. Os membros retornaram às suas agências de origem, mas a dissolução forçada, em circunstâncias tão específicas, prejudicou a trajetória de todos. O IZ*ONE, que também foi afetado pela investigação — vários membros constavam entre os que poderiam ter sido manipulados para dentro ou para fora da formação —, continuou ativo mas com a legitimidade do processo de formação permanentemente questionada. O grupo encerrou as atividades em abril de 2021, conforme o contrato original previa, sem extensão.

    O impacto humano mais invisibilizado do escândalo foi sobre os trainees que foram manipulados para fora dos grupos. Essas pessoas — identificadas pela investigação como as vítimas mais diretas da fraude — investiram anos de treinamento, participaram do processo, acumularam fandoms durante o programa, e foram excluídas por uma decisão que não tinha nada a ver com votação. Alguns tentaram debutar após a revelação do escândalo e conseguiram: Kim Woo-seok, do X1, entrou no TOP6. Outros nunca encontraram uma abertura equivalente. A indústria não criou nenhum mecanismo formal de reparação para esses casos.

    O legado: o que o Produce 101 deixou no k-pop

    Apesar do colapso, o legado do Produce 101 na estrutura do k-pop é inegável e permanente. O formato de survival com voto público se tornou o modelo padrão para debuts de novos grupos — **I-LAND** (ENHYPEN, 2020), **Girls Planet 999** (Kep1er, 2021) e **Boys Planet** (ZEROBASEONE, 2023) são herdeiros diretos do modelo Produce, com ajustes de transparência que tentam evitar a repetição do escândalo — incluindo auditoria externa de votos e maior divulgação dos totais em tempo real. A ideia de que o público pode participar da formação de um grupo deixou de ser experimento e virou expectativa de mercado para um segmento inteiro do k-pop.

    O formato também transformou como as agências pensam sobre lançamento de novos grupos. Antes do Produce 101, o único caminho era o debut direto — investimento total de uma agência em um grupo que poderia ou não encontrar audiência. Depois do Produce 101, o survival show se tornou uma alternativa viável: exposição nacional (ou internacional), construção de fanbase durante o processo, e debut de um grupo que já tem histórico de votação como prova de interesse público. Mesmo agências que nunca participaram da franquia Mnet passaram a lançar seus próprios formatos de survival para debuts, de escala menor mas com a mesma lógica. O Produce 101 não apenas criou grupos — criou um novo paradigma de como grupos são criados.

    Em termos de carreiras individuais, os grupos do Produce 101 foram trampolins extraordinários para dezenas de artistas. Chungha (I.O.I) construiu uma das carreiras solo mais consistentes e artísticamente corajosas do k-pop feminino dos anos 2020, com projetos que desafiam categorização fácil. Kang Daniel (Wanna One) foi o idol masculino mais seguido no Instagram por vários meses consecutivos após o encerramento do grupo, antes de uma série de disputas contratuais com a agência de origem. Ha Sungwoon construiu uma carreira solo sólida em k-pop adulto. Do IZ*ONE, membros como Jang Wonyoung e An Yujin vieram a formar o IVE — um dos grupos femininos mais bem-sucedidos comercialmente do k-pop atual, com múltiplos hits e prêmios de artista do ano. Miyawaki Sakura, também do IZ*ONE, retornou ao Japão, participou do Produce 101 Japan e depois debutou no LE SSERAFIM.

    O Produce 101 é um caso de estudo perfeito sobre como o entretenimento coreano funciona em seus extremos: a capacidade de criar conexão emocional em escala industrial, a velocidade com que um formato pode se tornar hegemônico em poucos anos, e a fragilidade ética de um sistema onde os incentivos financeiros são grandes o suficiente para que a tentação de manipular supere o risco de ser descoberto. O k-pop que existe hoje — com seus programas de survival, seus grupos formados por voto, seus debuts assistidos por milhões antes mesmo do lançamento do primeiro single — tem o DNA do Produce 101 em cada camada. O escândalo revelou os custos humanos desse sistema. O formato sobreviveu ao escândalo. Ambas as coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e entender essa tensão é entender como a indústria funciona. Para descobrir os grupos e artistas que vieram dessa era, explore o [catálogo completo](/groups) de grupos no HallyuHub.