**Mantis** chegou à Netflix praticamente sem campanha de marketing prévia e passou semanas no top 10 global pelo boca a boca. É o tipo de thriller que o cinema coreano faz melhor: um personagem moralmente ambíguo, uma estrutura narrativa que parece simples mas vai complicando de formas inesperadas, e uma última meia hora que redefine tudo que você assistiu antes. Se você não ouviu falar, é o momento de prestar atenção.
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Ficha técnica
- Título original
- 사마귀 (Samagwi)
- Direção
- Park Kang (estreia de longas)
- Ano
- 2025
- Duração
- 124 minutos
- Gênero
- Thriller / Crime / Vigilante
- Protagonista
- Oh Jung-se (Kang Tae-gon)
- Onde assistir
- Netflix
- Semanas no top 10 global
- 6 semanas consecutivas
A premissa: o vigilante que não parece um herói
Kang Tae-gon (Oh Jung-se) é um funcionário público de meia-idade, sem nada de especial na aparência ou no comportamento, que passa seus dias processando documentos e suas noites investigando e punindo figuras poderosas envolvidas em corrupção sistêmica. O título — "Mantis" (louva-a-deus em coreano, *samagwi*) — refere-se ao apelido que a mídia dá a esse vigilante misterioso: silencioso, paciente, letal quando ataca.
O que diferencia Mantis da fórmula padrão de vigilante é a recusa do filme em fazer do protagonista um herói. Tae-gon não tem um trauma motivador limpo, não tem princípios morais claros sobre quem merece ser punido, e não tem um código de honra estilizado. Ele tem uma obsessão — e o filme passa boa parte do tempo examinando o que essa obsessão está custando a ele, às pessoas ao redor, e à ideia abstrata de justiça que ele acredita estar defendendo.
Oh Jung-se: um rosto inesperado para um papel assim
**Oh Jung-se** é mais conhecido no Brasil por *It's Okay to Not Be Okay* (2020), onde interpretou o irmão autista de Kim Soo-hyun num papel que lhe rendeu o Baeksang de Melhor Ator Coadjuvante. Escalá-lo como vigilante é uma escolha deliberadamente subversiva: ele não parece um herói de ação. Seu rosto é o rosto de um homem comum. E é exatamente isso que o filme precisa.
A performance de Oh Jung-se em *Mantis* opera quase inteiramente no silêncio. Há sequências longas em que vemos Tae-gon observando, esperando, calculando — e a câmera simplesmente fica no rosto dele. O ator entrega um personagem que você não consegue ler completamente, o que cria uma tensão constante: a qualquer momento, você não tem certeza do que ele vai fazer.
Eu queria que o espectador ficasse desconfortável com o protagonista. Se você torce para ele sem questionar, o filme falhou. A graça é você querer que ele vença e não saber se deveria.
— Park Kang, diretor, em entrevista ao Cine21 [VERIFICAR]
A corrupção como personagem
O cinema coreano tem uma relação especial com o tema da corrupção sistêmica — em parte porque a Coreia do Sul tem uma história real e documentada de escândalos envolvendo chaebols (conglomerados), políticos e sistema judiciário. *Mantis* usa essa tradição para criar um mundo onde a corrupção não é praticada por vilões obviamente malignos, mas por pessoas que encontraram arranjos convenientes e simplesmente pararam de questionar.
A estrutura em três atos que subverte a fórmula
Atenção: o próximo parágrafo contém informações sobre a estrutura narrativa (não são spoilers de trama, mas de forma). **Ato 1:** estabelece Tae-gon como vigilante eficaz — vemos sua metodologia, suas regras, seus alvos. **Ato 2:** uma investigação começa sobre o Mantis, e a câmera começa a questionar se Tae-gon é quem pensávamos. **Ato 3:** o filme desmonta as certezas dos dois atos anteriores de uma forma que forçosamente vai te fazer rever cenas que você assistiu.
Referências e linhagem cinematográfica
- — Estabelece o modelo de thriller policial coreano com moral ambígua
- — Redefinem o personagem do homem de um propósito no cinema asiático
- — Confirmam que thriller de precisão é a especialidade do cinema coreano
- — Globaliza o apetite por cinema coreano que critica estruturas sociais
- — Thriller de vigilante e anti-herói na Netflix — um dos melhores da onda atual
A direção: uma estreia impressionante
**Park Kang** estava completamente desconhecido antes de *Mantis* — é seu primeiro longa-metragem. A qualidade técnica é impressionante para uma estreia: o filme usa uma paleta de cores muito específica (azuis e verdes frios contrastando com o vermelho quente das cenas de tensão), e tem uma consciência de ritmo que muitos diretores veteranos não dominam. Cada cena de Tae-gon em modo vigilante usa câmera na mão; cada cena de sua vida "normal" usa câmera estática e planos estáticos. A mudança de linguagem visual sinaliza ao espectador o estado mental do personagem sem precisar de diálogo.
Vale o hype? Para quem é esse filme?
Pontos positivos
- Oh Jung-se entrega a melhor performance de sua carreira — e já era um ator extraordinário
- A estrutura narrativa é original e funciona excepcionalmente bem
- A crítica social é integrada ao thriller sem virar didatismo
- O terceiro ato é genuinamente surpreendente de uma forma que não parece barata
- Produção técnica impecável para uma estreia de diretor
Pontos de atenção
- O segundo ato tem um subplot de investigação que move em ritmo lento demais
- Personagens femininos são subdesenvolvidos — o filme tem um problema real de representação
- Algumas convenções do gênero de vigilante ficam onde deveriam ter sido subvertidas
- O climax pode parecer conveniente demais para quem esperava uma resolução mais ambígua
Se você é fã de *Memories of Murder*, *A Hard Day* ou *The Yellow Sea* — o tipo de thriller coreano que trata seu protagonista como um ser humano falho em vez de um action hero — *Mantis* é obrigatório. Se você quer ação espetacular com explosões e perseguições, provavelmente vai se frustrar. Este é um filme sobre um homem quieto fazendo coisas terríveis por razões que você vai demorar 90 minutos para entender.
Mantis prova que o cinema coreano de thriller ainda tem coisas novas a dizer sobre moral, justiça e o que as pessoas fazem quando decidem que o sistema falhou com elas. Veja. Depois veja de novo.
Mantis (2025): 8/10

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