Existe um tipo de filme que só o cinema coreano sabe fazer: aquele que coloca um personagem em uma situação extrema, moralmente impossível, e observa o que acontece com frieza cirúrgica enquanto a emoção transborda por todos os lados. **Kill Boksoon** é esse filme. Gil Boksoon é a melhor assassina profissional do mundo — e uma mãe solteira que não sabe como lidar com a filha adolescente. A premissa soa como comédia. O resultado é uma das experiências de cinema mais originais que a Netflix lançou nos últimos anos.
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Ficha técnica
- Título original
- 길복순 (Gil Boksoon)
- Direção e roteiro
- Byun Sung-hyun
- Ano
- 2023
- Duração
- 137 minutos
- Gênero
- Ação / Drama / Dark comedy
- Protagonista
- Jeon Do-yeon (Gil Boksoon)
- Coadjuvante principal
- Sol Kyung-gu (Cha Min-kyu)
- Filha
- Kim Si-a (Gil Jae-yeong)
- Onde assistir
- Netflix (original)
- Nota Rotten Tomatoes
- 97% (crítica) / 85% (audiência)
O conceito que muda tudo
A originalidade de *Kill Boksoon* começa no conceito de mundo: assassinos profissionais existem numa indústria regulamentada, com contratos, escalas de preço, avaliações de desempenho e, claro, renovação de licença a cada três anos. **MK ENT** é a empresa onde Boksoon trabalha — e a cena em que ela discute sua renovação de contrato com o chefe como se fosse uma reunião de recursos humanos é uma das mais engraçadas e perturbadoras do ano. A corporatização do assassinato cria um comentário afiado sobre trabalho, lealdade e o que realmente vendemos quando vendemos nosso tempo.
Jeon Do-yeon: por que ela é insubstituível nesse papel
**Jeon Do-yeon** ganhou a Palma de Ouro de melhor atriz em Cannes em 2007 por *Secret Sunshine* — o que já coloca ela numa categoria rara. Em *Kill Boksoon*, ela usa toda a sua arsenal técnico para criar um personagem que é simultaneamente aterrorizante e patético, competente e perdida, fria como gelo e desesperadamente humana. A forma como ela transita entre a Boksoon assassina (postural, econômica, de olhar vazio) e a Boksoon mãe (insegura, maladroit, emotiva) é um exercício de atuação que merece estudo.
Há uma sequência no primeiro ato em que Boksoon, logo depois de completar uma missão com brutalidade metódica, recebe uma mensagem da filha perguntando que horas ela vai chegar em casa. Jeon Do-yeon faz a transição em tempo real — o rosto vai de pedra para algo que você poderia chamar de ansiedade materna comum, exceto que ela ainda está segurando uma arma. É um dos melhores 30 segundos de atuação que você vai ver.
Toda mulher que trabalha intensamente carrega essa sensação de que nunca está totalmente presente onde deveria estar. Boksoon só leva isso a um extremo que torna o absurdo visível.
— Jeon Do-yeon, entrevista para o Korea Herald [VERIFICAR]
As cenas de ação: coreografia como linguagem
Um dos maiores debates sobre *Kill Boksoon* gira em torno das cenas de ação. O coreógrafo **Kang Woo-seok** criou um estilo híbrido que mistura MMA com ballet — movimentos fluidos que têm uma lógica física convincente mas também uma estética que vai além do realismo. Boksoon não luta como John Wick (hipnótico e coreografado até a paralisia). Ela luta como alguém que passou a vida inteira treinando para ter opções, não para fazer bonito.
- **Cena do corredor (ato 2):** comparada pela crítica internacional a *Oldboy* — brutalidade crescente que revela o estado mental de Boksoon mais do que qualquer diálogo
- **A luta no banheiro:** confinamento de espaço usado para criar claustrofobia tática
- **Confronto final:** câmera mais lenta, mais emocional — quando o filme decide que a ação já não é o ponto, mas o custo dela
- **Treino com a filha:** a única cena de "ação" sem violência real — e ironicamente a mais reveladora sobre a personagem
A filha como espelho
A personagem de **Jae-yeong** (interpretada por Kim Si-a) é o coração emocional de *Kill Boksoon*. Uma adolescente no processo de descobrir sua identidade — incluindo sua orientação sexual — que tem a mãe menos disponível do mundo e as melhores desculpas involuntárias para ausências. A tensão entre as duas não é melodramática: é do tipo quieto, acumulado, de pessoas que se amam e não encontram o idioma certo para se comunicar.
O filme não resolve essa relação com um abraço e uma declaração. A resolução é mais sutil e mais honesta: a ideia de que amor real pode significar reconhecer os seus limites como pais e ainda assim aparecer quando importa, mesmo com sangue nas mãos.
O mundo corporativo da morte: uma sátira afiada
A MK ENT é onde o filme mais brilha como sátira. Toda a lógica corporativa está lá: o chefe carismático e amoral (Sol Kyung-gu num papel absolutamente delicioso), as intrigas internas por posição, os "valores da empresa" que mascaram as violências necessárias ao negócio, a lealdade comprada e vendida como mercadoria. *Kill Boksoon* está dizendo algo sobre trabalho moderno usando assassinos como metáfora — e funciona precisamente porque o filme nunca para para explicar a piada.
Referências que o filme conversa
*Kill Boksoon* está claramente em diálogo com outros filmes que misturam ação e comentário social. Identificar as referências enriquece a experiência — mas o filme funciona perfeitamente sem elas.
Filmes de assassinas profissionais
| Tom | Atuação fem. | Ação | Comentário social | |
|---|---|---|---|---|
| Kill Boksoon (2023) | Drama + dark comedy | ★★★★★ | ★★★★ | ★★★★★ |
| Atomic Blonde (2017) | Estético / frio | ★★★★ | ★★★★★ | ★★ |
| Nikita (1990) | Thriller melancólico | ★★★★★ | ★★★ | ★★★ |
| The Killer (2023) | Filosófico / minimalista | — | ★★★★ | ★★★★ |
Problemas reais que o filme tem
Pontos positivos
- Jeon Do-yeon em performance da carreira — cada cena é um estudo de nuance
- O worldbuilding da indústria de assassinos é inventivo e coerente internamente
- A sátira corporativa funciona em múltiplos níveis sem nunca ser didática
- A relação mãe-filha é o tipo de coisa que fica na cabeça dias depois
- Direção de fotografia deslumbrante — especialmente nas cenas de ação com iluminação ao néon
Pontos de atenção
- 137 minutos é pelo menos 15 a mais — o segundo ato tem sequências que poderiam ter sido cortadas
- O vilão do terceiro ato parece pertencer a outro filme — convenções de thriller que conflitam com o tom original
- Alguns personagens secundários da MK ENT são subutilizados como comentário social
- A resolução do arco da filha pode parecer apressada para quem estava mais investido nessa relação do que nas cenas de ação
Por que Kill Boksoon importa além do entretenimento
O cinema de ação raramente coloca mulheres como protagonistas sem precisar justificar isso dentro da narrativa — a personagem precisa "provar" que merece o status de guerreira através de um trauma específico ou de uma origem especial. *Kill Boksoon* não faz isso. Boksoon é simplesmente a melhor nisso que faz. A questão não é "como uma mulher pode ser assim" — a questão é "o que custa ser assim, independente de gênero".
Isso parece sutil, mas representa uma mudança real: o filme trata sua protagonista feminina com a mesma ausência de explicação que Hollywood trata protagonistas masculinos. Nenhum filme do John Wick para para justificar por que um homem pode ser tão violento. *Kill Boksoon* oferece Boksoon com a mesma dignidade tácita.
Kill Boksoon é um dos melhores filmes de ação dos anos 2020 — não apesar das emoções, mas por causa delas. Jeon Do-yeon faz algo raro: torna uma assassina a personagem mais humana da sala.
Kill Boksoon (2023): 8.5/10

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